quarta-feira, janeiro 25, 2006

QUEREM ACABAR COM A DISCIPLINA DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO NOS CURSOS PROFISSIONAIS DE MULTIMÉDIA – PARTE III


Ensaio de Artur Santos*, que será enviado para a comissão de avaliação do Curso de Multuimédia do Instituto de Formação Vocacional.

"O Homem é um ser que necessita de viver inserido na sociedade a que pertence, o que o consagra como animal social por excelência. E, como animal social, precisa de estabelecer uma relação comunicativa com tudo o que o envolve e com todos os seres com os quais contacta, especialmente com os seus semelhantes. Essa comunicação, natural e permanente, com o quotidiano é estabelecida através dos sentidos. (...).
A comunicação é, igualmente, o suporte da vida em sociedade e o mecanismo através do qual as relações humanas existem e se desenvolvem. De tal modo que nenhum grupo social teria possibilidade de sobreviver se, entre os elementos que o compõem, não existisse uma troca de qualquer comunicação. Em resumo, a comunicação é, pois, o acto de transmitir e receber uma mensagem, graças à utilização de um código adequado de sinais ou símbolos”[1]. Num tempo em que a globalização se estende como “polvo” numa “aldeia” cada vez mais próxima, a figura do técnico de multimédia veste-se de importância capital, não só no contínuo desenvolvimento dessa ideia de proximidade cultural, económica e mesmo política, bem como no essencial exercício da compreensão e contextualização da linguagem emitida por todos os meios que contribuem para dispersão dos “tentáculos” do “polvo” global.
Mas para que haja essa mesma compreensão e contextualização, os técnicos de multimédia (informáticos, produtores de conteúdos multimédia, produtores e realizadores de televisão, cinema e rádio, designers gráficos, publicitários, entre outros) devem conhecer de forma profunda a linguagem que cimenta o dia a dia dos meios de comunicação de massas (mass media), e de que forma esta é construída, manipulada e difundida, de forma a explicar três vectores preponderantes: Percepção, Compreensão e Difusão. É aqui que se situa o mundo das ciências da comunicação. Como o próprio nome indica é a ciência que estuda e desenvolve todas as teorias que ligam os fenómenos da comunicação aos mais variados profissionais que orbitam o campo do multimédia, do jornalismo e mesmo de outros ramos do saber como a sociologia e psicossociologia.
Qual é o formato da comunicação que na actualidade é difundida nos mass media, nas empresas intimamente ligadas à comunicação, nas empresas onde a comunicação institucional, publicitária e ou comunicação interna é importante para o crescimento sustentado da instituição pública ou privada? Por que meios se explora a percepção da Comunicação, temática esta muito explorada por um dos estudiosos maiores das teorias da Comunicação, Marshall McLuhan, autor da célebre expressão: “Aldeia Global”? Como se desenvolve o acto de manipulação da informação nos meios de comunicação social, na máquina complexa da política. Qual o formato da informação e ou da publicidade que a toda a hora entra em nossa casa, nos nosso telemóveis, nas paragens de autocarro, nos jornais que trazemos na pasta, no cinema, na rádio do automóvel?
A todas estas questões deve o responsável pelo estudo das ciências da comunicação responder. É o professor universitário ou não, o formador do ensino técnico profissional, são as instituições de ensino e os organismos estatais ligados ao ensino os responsáveis sociais e que devem apostar no difundir das teorias da comunicação, não só para que se preparem os futuros profissionais, de forma a colmatar as necessidades de mercado, mas também com o objectivo de proteger a opinião pública dos malefícios, do lado negro da comunicação, sobejamente conhecidos com vários exemplos de manipulação, descontextualização, publicidade e propaganda ilícita, contra-informação, entre outros, num verdadeiro “legado do medo” [2] que nos obriga a conviver dia-a-dia com o estigma da dúvida quanto às naturais intenções dos mass media.
Urge compreender de que forma a comunicação influi nas relações humanas, na percepção da realidade, na construção e emissão da nossa própria opinião quanto a essa realidade social, cada vez mais desigual.
Não se deixe, então de apostar no ensino destas temáticas. Creio que esta disciplina ou área de conhecimento se deve estender aos mais variados currículos programáticos, e tal estratégia é obviamente necessária para se entender a Globalização, já que foi o desenvolvimento das teorias da comunicação, a par com a expansão tecnológica, o grande responsável por este fenómeno sociológico que abarca todas as áreas da sociedade, sem excepção.

[1] Lopes, Arnaldo, Comunicação e Difusão – 10º/11º ANOS. Porto: Porto Editora. ISBN: 972-0-44-100-3

[2] Dos Santos, José Rodrigues (2001), Comunicação. Lisboa: Colecção Mocho. ISBN: 972-8563-46-9"


* Artur Santos é Jornalista, Investigador, Director Pedagógico e Docente na Universidade Sénior Contemporânea, Professor de Ciências da Comunicação na Escola Profissional de Cortegaça.
Licenciado pela Escola Superior de Jornalismo, Doutorando em Comunicação, Publicidade, Relações Públicas e Protocolo pela Universidade de Vigo, Espanha.